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No entardecer do domingo,
quando nas grandes Basílicas se oferecia o incenso do sacrifício vespertino das
Segundas Vésperas, no dia 03 de agosto de 2014, Dia do Padre, e véspera da
memória litúrgica de São João Maria Vianney, no início do Mês Vocacional,
partia Dom Benedicto de Ulhôa Vieira para fazer a sua Páscoa definitiva,
entrando no dia sem ocaso para o eterno repouso, participando das alegrias do
Senhor, a quem serviu por toda a sua vida.
Desde criança, em Mococa
(SP), onde nascera em 19 de outubro de
1920, servia nos altares do Senhor, acalentando o desejo de um dia ministrar a
Santa Missa. Com brilho no olhar, Dom Benedito nos contava uma de suas muitas
memórias de infância. Ele tinha uma irmãzinha que andava com dificuldades,
amparada por muletas. A mãe, que teve a vida ceifada precocemente, contava para
as crianças reunidas na sala, a história de Nossa Senhora Aparecida, que
libertou o escravo. No mesmo instante, a menina exclamou: “Se Nossa Senhora
libertou o escravo, ela pode me curar”. Deixando as muletas, sua irmãzinha
começou a andar naturalmente para nunca mais usar muletas. Emocionado, Dom
Benedicto arrematava: “Naquele dia, Nossa Senhora entrou na minha casa, curou
minha irmã e me chamou para ser padre”.
Foi esse encanto pelo
chamado de Deus, reclinado por Nossa Senhora Aparecida em seu coração de
criança, que levou o jovem Benedicto a superar muitos desafios do processo
formativo na vida de seminário e a ser ordenado presbítero, no dia 8 de
dezembro de 1948. Dentre os muitos trabalhos que ele se dedicou como padre, na
capital paulista, podemos ressaltar: foi Professor, Vice-Reitor e Capelão da
PUC-SP; Pároco dos Universitários e Reitor do Seminário Central do Ipiranga;
Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo e coordenador de sua restauração
administrativa.
O jovem Padre
Benedicto foi o autor da primeira tese doutoral defendida na Faculdade de
Teologia “Nossa Senhora da Assunção”, em São Paulo. Filiada à Pontifícia
Universidade Católica e anexada ao Seminário Central do Ipiranga, a insipiente
Faculdade – que ainda não completara cinco anos de sua fundação – contava já
com uma dezena de sacerdotes formados na Pontifícia Universidade de Roma. A
data da defesa da tese foi marcada pelo próprio Dom Carlos Carmelo de
Vasconcellos, Cardeal Motta, que presidiu a sessão solene, aos 7 de setembro de
1953. O título da tese é “A consumação soteriológica na Epístola aos Hebreus:
Teologia de São João Crisóstomo”.
O Papa Paulo VI nomeou o
então Monsenhor Benedicto como Bispo Auxiliar de São Paulo. Sua ordenação
ocorreu no dia 25 de janeiro de 1972,
pelas mãos do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, permanecendo no cargo por sete
anos. Ali, Dom Benedicto teve marcante atividade pastoral nas comunidades da
periferia e forte atuação profética em defesa dos presos políticos e na
denúncia dos desmandos da ditadura militar, como relatam inúmeros livros de
História. Recentemente, a jovem Amanda Oliveira apresentou uma dissertação de
mestrado na Universidade Federal de Uberlândia sobre este tema, transformando-a
em um livro intitulado “Dom Benedito de Ulhôa Vieira: uma trajetória de Esperança”.
No dia 15 de setembro de 1978, Dom Benedicto
tomou posse como 2º Arcebispo Metropolitano de Uberaba-MG e 5º Bispo da cidade
das sete colinas. No seu discurso de chegada a Uberaba, ele assim se
apresentou: “Sou bandeirante. Venho de Piratininga e trago comigo a pressa
daqueles que não sabem esperar”. Seu governo pastoral foi marcado pela pressa
em servir. Era o homem que tudo fazia já de véspera. Ainda que tendo assumido
encargos na CNBB, como Vice-presidente (1983-1987) e Presidente do Regional
Leste II, pastoreava sua Igreja com todo desvelo.
No dia 6 de agosto de 1988, tive a grande
satisfação de ter sido ordenado diácono por este grande homem de Deus. Consigo
ainda ouvir a sua voz intrépida a interpretar a ordenação como verdadeira
transfiguração: “Hoje, neste Santuário, acontece uma nova transfiguração: a
ordenação deste jovem. Antes vai ele prostrar-se para sentir o cheiro da terra,
de onde saímos, e depois erguer-se, na beleza de sua mocidade, e dizer:
‘Senhor, aqui estou’”. Aos 8 de dezembro de 1988, as mãos paternas de Dom
Benedicto voltaram a ser reclinadas sobre a minha fronte, agora para a
ordenação presbiteral. Nós, padres jovens, o rodeávamos para beber dele não
somente a sabedoria, mas também a sua afeição, como fazia o jovem Irineu aos
pés do velho Policarpo, bispo de Esmirna, no início do século II. Quais homens
insignes da história da Igreja, Dom Benedicto nos transmitia a Tradição
Apostólica e nos enchia de zelo e ardor no discipulado e na configuração a
Jesus Cristo.
Além das visitas pastorais às paróquias e
animação das periódicas reuniões do clero, D. Benedicto instituiu as
Assembleias arquidiocesanas e a elaboração dos planos de pastoral (PAPIU –
Plano Arquidiocesano de Pastoral da Igreja de Uberaba). Organizou a Arquidiocese
conforme a inspiração do Concilio Vaticano II, Igreja Povo de Deus. Criou 11
paróquias; ordenou 30 padres; criou a Comissão dos Direitos Humanos; realizou a
reforma da catedral e de várias outras igrejas e, no seu governo, foi
desmembrada a Diocese de Ituiutaba. Construiu o novo Seminário, dedicado a São
José; criou a Escola de teologia para leigos e leigas (ESTELAU) e a Escola
diaconal Santo Estevão.
Foram mais de 17 anos de profícuo ministério
episcopal de Dom Benedicto na Arquidiocese de Uberaba, cujos frutos ainda
reverberaram mesmo depois de se tornar emérito, o que ocorreu a 28 de fevereiro
de 1996. Suas aulas, palestras e homilias manifestavam sua altíssima sabedoria,
recolhida em várias obras publicadas. Como Reitor do Santuário da Medalha
Milagrosa, Dom Benedicto, já Arcebispo emérito, aspergia seu zelo pastoral e a
todos encantava com seu vigor nutrido de fé inquebrantável. Às noites de
sexta-feira, saía pelas ruas da cidade
levando um lanche às pessoas em situação de rua, manifestando sua
solidariedade para com os empobrecidos. Já alquebrado, tinha grande satisfação
em receber visitas em sua casa, com quem se entretinha sobre variados assuntos, como cultura, literatura,
filosofia, teologia, religiosidade e muita prosa boa.
Foi esse o homem-doutor, rico em sabedoria para enriquecer o seu rebanho com a iluminação divina. Foi ele o homem-poeta a inspirar o sentido da vida de tantas pessoas. Foi ele o pastor zeloso a cuidar, com extrema dedicação, do rebanho a ele confiado, com amor de predileção pelos empobrecidos e descartados da sociedade. Dom Benedicto foi o homem completo, excessivamente humano, no exercício de seu ministério como servidor de Deus e de seu povo.
Dom Geraldo dos Reis Maia - Bispo de Araçuaí