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101 anos da morte de Dom Eduardo

101 anos da morte de Dom Eduardo

Eduardo Duarte Silva nasceu em 27 de janeiro de 1852 na Vila de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (SC). Fez seus primeiros estudos no Colégio da Missão, pertencente aos padres lazaristas, onde recebeu uma consolidada formação humanística. Em 1863, com onze anos, mudou para o Colégio Santíssimo Salvados, dos padres jesuítas. Quando completou quinze anos, saiu da casa de seus pais para nunca mais voltar. Ingressou no Seminário São José (cujo nome lhe inspiraria décadas mais tarde na fundação do seminário na sua Uberaba) em 1867. Mas ficaria pouco tempo em Santa Catarina. Seus superiores logo notaram nele a fibra e a inteligência de alguém que tinha o potencial de se tornar um notável servidor da Igreja de Cristo e o enviaram, em 1868, para a Cidade Eterna. Seus estudos filosóficos e teológicos foram realizados na prestigiosa Universidade Gregoriana. Foi ordenado diácono no dia 20 de abril de 1874 e o presbiterato no dia 19 de dezembro desse mesmo ano pelo Cardeal Constantino Patrizzi Naro, vigário-geral do Papa Pio IX. Ambas as ordenações aconteceram na Basílica de São João de Latrão, em Roma. Contava então com vinte e dois anos quanto retornara ao Brasil como presbítero.

Em nossa pátria, foi vigário paroquial da Matriz de N. Sra. do Desterro, em Florianópolis por quase quatro anos quando foi transferido para a capital do Império: o Rio de Janeiro. Naquele tempo a província de Santa Catarina pertencia à Arquidiocese do Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, foi nomeado cônego da Capela Imperial (1879), capelão do Hospital Franciscano da Penitência (1879) e colaborador da nunciatura apostólica (1888). Nesta última função, compôs a comissão que em nome do Papa presenteou a Princesa Isabel de Bragança com a Rosa de Ouro, uma comenda pontifícia, pela assinatura da Lei Áurea. Por sua contribuição espiritual, política e cultural com a sociedade carioca no período do Império recebeu de Dom Pedro II em 1889, meses antes da Proclamação da República, a Comenda da Ordem de Cristo e o título de conde.

Sua nomeação episcopal aconteceu de forma inusitada! Recebeu o chamado pessoalmente do Papa Leão XIII enquanto acompanhava Dom Joaquim Cardeal Arcoverde, arcebispo do Rio de Janeiro, numa visita pontifícia. Foi sagrado bispo no dia 8 de fevereiro de 1891, quando contava com trinta e nove anos, na Capela do Colégio Pio Latino-Americano, em Roma, pelo cardeal Lúcido Maria Parocchi, vigário-geral de Roma e co-consagrantes Dom Ricardo Casanova y Estrada (Guatemala) e Dom Joaquim Arcoverde (Rio de Janeiro). Sua missão no Brasil o aguardava: ser bispo e pastor da continental Diocese de Goyaz cujo território se estendia pelo vasto sertão do Brasil: Goiás, Tocantins, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba!

Como bispo de Goyaz sua colaboração foi principalmente no sentido de prover sacerdotes para as paróquias que careciam, de iniciar a transição de uma fé muito calcada na piedade popular para uma fé mais racional, das missões realizadas junto às populações indígenas no Tocantins (caiapós, javaés, apinagés, xavantes e outros) e de moralizar os grandes santuários da diocese retirando-os da administração das irmandades leigas e os entregando para os padres religiosos. Tanto para Trindade (GO) quanto para Muquém (GO), Dom Eduardo foi à Alemanha buscar os padres redentoristas.

Em junho de 1896 transferiu sua residência e o governo da Diocese de Goyaz para a cidade de Uberaba. O desgaste em sua relação com as elites goianas, a localização geográfica e o desenvolvimento econômico de Uberaba comparado à então Cidade de Goyaz (hoje Goiás Velho) provavelmente foram os principais motivos que justificaram sua decisão.

No final do século, em 1899, aceitou a convocação do Papa Leão XIII para participar do Concílio Plenário da América Latina em Roma. Este encontro visava romanizar o catolicismo na Igreja latina por meio do canto sacro, da língua latina, da evangelização dos indígenas e da adequada formação do clero por meio dos seminários. Pode-se dizer que esta tenha sido a recepção tardia do Concílio Tridentino (séc. XVI) na América Latina. Toda a evangelização e missão que os portugueses haviam empreendido no Brasil até então baseava-se numa religiosidade popular, medieval e sincrética.

Em sua autobiografia, destaca-se uma intuição de Dom Eduardo: “mais do que evangelizar Uberaba, preciso civilizá-la!”. Nesse duplo intento, ele trouxe da França tanto as irmãs dominicanas para abrirem um colégio para meninas em 1895 como os irmãos maristas para abrirem um colégio para meninos em 1902. Surgiam assim os colégios Nossa Senhora das Dores e Marista Diocesano.

No dia 29 de setembro (dia de São Miguel Arcanjo, de quem era devoto) de 1907 conseguiu que o Papa São Pio X atendesse seu pedido: a criação da Diocese de Uberaba. O Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba seriam desmembrados da Diocese de Goyaz e ele – Eduardo – se tornaria o primeiro bispo da diocese recém-criada. Das sete colinas uberabenses, as quais ele comparava com as sete colinas romanas, escolheu o Alto das Mercês para sua residência (Casa São José), para seu governo (cúria) e para sua catedral (igreja da Adoração). Se a Colina Vaticana abrigava a sede da Igreja universal, caberia ao Alto das Mercês acolher a sede da Igreja local.

Qual legado deixou Dom Eduardo Duarte Silva para Uberaba? Primeiro, entender que para ele o desenvolvimento espiritual da cidade não estava desassociado de seu desenvolvimento cultural e econômico. Neste sentido, promoveu também a educação, a cultura, a imprensa e a economia (ele era um entusiasta do zebu!). Segundo, lançou as bases para organização em nível eclesiástico da devoção a Nossa Senhora da Abadia na região: criou a Paróquia de Nossa Senhora da Abadia, em Uberaba, e elevou a Santuário Diocesano a paróquia equivalente em Romaria. Terceiro: estruturou a base administrativa até hoje vigente na Igreja de Uberaba através da construção da cúria e de sua residência, depois convertida no Seminário São José (por ele fundado!) e hoje Casa São José. Ordenou trinta presbíteros para a Diocese de Uberaba e criou quatro paróquias: São Miguel de Veríssimo (1896), Santíssimo Sacramento – Adoração (1908), N. Sra. de Lourdes de Conquista (1908) e N. Sra. da Abadia em Uberaba (1921). Seu nome ficou eternizado na principal praça e numa escola no Alto das Mercês, colina por ele tão amada, de onde se irradiaria, segundo seu desejo, o catolicismo para todo o Triângulo. Governou nossa Igreja por trinta e dois anos, metade como bispo de Goyaz e metade como bispo de Uberaba.

Sua renúncia foi aceita em 13 de agosto de 1923. Mudou-se pouco tempo depois para o Rio de Janeiro, onde tinha uma irmã e um cunhado. Antes de morrer, no ano seguinte, reconheceu ter errado em sair de Uberaba. Ele conta: “Depois de 33 anos que deixei essa capital, para ir reger a Diocese de Goyaz e depois de Uberaba, eis-me de novo no Rio de Janeiro, onde vim fixar minha residência, aceita como foi a minha renúncia do bispado de Uberaba! Eis-me no Rio, onde deixei tantos amigos eclesiásticos e seculares, onde desempenhei tantos cargos! Não conheço quase mais ninguém, e não sei mais andar nestas ruas do novo Rio de Janeiro, de onde desapareceram as antigas, onde novas foram abertas, onde novas praças e avenidas o transformaram radicalmente! Procuro os antigos cônegos que no cabido existiam, e não acho nenhum só que seja! Procuro pelos reverendos e vigários que aqui deixei e não acho nenhum! Indago pelos religiosos beneditinos, carmelitas e franciscanos e de toda banda se responde: 'Morreu, morreu, morreu!'. Que desolação, meu Deus, que solidão, que deserto, que tristeza! E eu, quem sou hoje aqui? Um náufrago arrojado a uma praia deserta! Que melhor teria sido para mim, exausto mesmo, estafadíssimo e doente, ter ficado lá pelos meus sertões, nas minhas Mercês, amado de todos e cercado de carinhos e lá esperar o termo da minha jornada!”.

Dom Eduardo terminou sua jornada, alcançando a esperança cristã pela páscoa, no dia 16 de outubro de 1924 aos setenta e dois anos. Décadas depois, em 8 de julho de 1983, por ordem de Dom Benedito de Ulhôa Vieira, seu sucessor – seus restos mortais foram trazidos para seu sertão, para sua Uberaba, onde repousam na cripta de nossa Catedral do Sagrado Coração de Jesus.

 

Pe. Vitor Lacerda