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18 de fevereiro de 2026
À medida que a Igreja se
prepara para viver um dos períodos mais profundos do calendário litúrgico, o
tempo da Quaresma convida os fiéis a um caminho de conversão, oração e
renovação espiritual. Mais do que tradições externas, esse tempo é marcado por
um chamado interior à reflexão sobre a própria fé e à preparação para o
mistério central do cristianismo: a Páscoa do Senhor.
Para ajudar os fiéis a compreenderem melhor o sentido e a vivência desse período tão significativo, apresentamos uma entrevista especial com Dom Paulo Mendes Peixoto, arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Uberaba. Na conversa com o assessor de imprensa François Ramos, o pastor aprofunda temas fundamentais da espiritualidade quaresmal, esclarece dúvidas frequentes e propõe caminhos concretos para viver esse tempo com autenticidade.
Ao longo da entrevista, Dom Paulo aborda o simbolismo dos 40 dias, o verdadeiro significado do jejum, da oração e da caridade, além da importância da Reconciliação, da vida familiar e do compromisso social durante a Quaresma. São reflexões pastorais que ajudam os cristãos a transformarem esse período em uma verdadeira experiência de encontro com Deus e de renovação da vida.
Confira, a seguir, a entrevista preparada especialmente para este tempo de graça e reflexão.
1. Dom Paulo, o que é a Quaresma dentro da tradição da Igreja Católica?
R.: Para a Igreja Católica, em toda a sua caminhada histórica, a Quaresma é um tempo litúrgico ou ciclo litúrgico, que acontece dentro do período de 40 dias, como espaço de preparação para a Páscoa da Ressurreição de Jesus. Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira da Semana Santa. Na catequese é dito ser tempo propício de conversão, penitência, jejum, oração e caridade. Tempo de voltar nossos olhos para todo o acontecimento da missão salvadora de Jesus Cristo, tendo seu cume na morte e ressurreição do Senhor.
2.
Por que esse tempo litúrgico é
considerado tão importante para a vida espiritual dos fiéis?
R.: O
fundamento da fé, da esperança e da caridade está ancorado na Ressurreição de
Jesus. É da morte na cruz que vem a vida da graça de Deus, porque Cristo venceu
a morte ressuscitando. Por esta razão, a Quaresma passa a ter sua importância
fundamental como tempo de preparação para o grande acontecimento da
Ressurreição de Cristo, aquilo que envolve toda a dimensão da vida cristã.
Todas as leituras dos domingos quaresmais nos direcionam para a Ressurreição de
Cristo.
3. A
Quaresma dura 40 dias. Qual é o simbolismo desse número na Sagrada Escritura?
R.: Na Bíblia,
os números normalmente simbolizam períodos de provação, purificação e
transformação. Assim temos, 40 dias e noites de chuva no dilúvio de Noé,
representando a purificação da terra (Gn 7,12); 40 dias de Moisés no monte
Sinai para receber de Deus os Mandamentos (Ex 24,18); 40 anos do povo de Israel
no deserto, antes de entrar na terra prometida (Nm 14,34); 40 dias de jejum de
Jesus antes de iniciar seu ministério e enfrentamento das tentações (Mt 4,2); 40
dias após a Ressurreição, Jesus aparece aos discípulos antes de sua Ascensão
aos Céus (At 1,3); 40 dias para o povo de Nínive se arrepender de seus pecados
(Jo 3,4).
4. Quais
são os principais convites que a Igreja faz aos católicos durante esse período?
R.: Na prática tradicional
católica, nesse período de 40 dias do ciclo da Quaresma, os cristãos são
motivados a fazer um processo sincero de conversão interior e de preparação
para o bonito tempo da Páscoa do Senhor, marcado por profunda mudança interior
e renovação espiritual. Para isto, devem intensificar as práticas relacionadas
à oração, ao jejum e à esmola.
5. O
tripé quaresmal — oração, jejum e caridade — continua sendo atual? Como vivê-lo
na prática hoje?
R.: Estamos em novos tempos da
cultura, até em um processo de esvaziamento na prática da fé. Então, a oração,
o jejum e a caridade, principalmente no tempo da Quaresma, exigem de todos
os cristãos mais sinceridade e discrição, preocupados com a conversão interior e
não em reconhecimento simplesmente humano, conforme aquilo que é ensinado por
Jesus. A oração é um diálogo íntimo com Deus; o jejum significa privação de
alimentos ou de prazeres para dominar as próprias paixões; e a caridade
(esmola) reflete o amor concreto ao próximo, transformando sacrifícios em
serviço.
6. Muitas
pessoas associam a Quaresma apenas a deixar de comer carne. Esse entendimento
está correto?
R.: Logico que não é só isso. Embora
a abstinência da carne vermelha na quarta-feira de cinzas e sexta-feira da
Paixão seja a tradição mais conhecida, ela é apenas uma das formas de
penitência nesse período voltado para a preparação espiritual para a Páscoa. A
base está no que citamos acima: oração, jejum e caridade. A abstinência se refere apenas ao jejum. Não
podemos excluir a oração e a caridade.
7. Qual
é o verdadeiro significado espiritual do jejum para o cristão?
R.: Para entender bem o
significado do jejum cristão, é preciso ler o capítulo 58,6 e seguintes do
profeta Isaías. Não é só deixar de comer carne, mas praticar a justiça em
relação ao irmão injustiçado. O sentido do jejum é muito mais profundo e
abrangente. Jesus retomou essa indicação de Isaías, olhando para as
necessidades do irmão.
8. Quem
está obrigado a praticar o jejum e a abstinência segundo as orientações da
Igreja?
R.: Conforme
o Direito Canônico (cân 1251-1252), as orientações são as seguintes:
Abstinência de carne para todos os fieis com 14 anos completos. O jejum é para
os adultos de 18 a 59 anos de idade. Há obrigação do jejum e da abstinência na
Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão do Senhor. A abstinência
consiste em não comer carne de boi, frango, porco, mas permite peixe, ovos,
etc. O jejum consiste em fazer apenas uma refeição completa ou dois lanches
durante o dia.
9. Existem
situações em que o fiel pode ser dispensado do jejum ou da abstinência?
R.: São dispensados do jejum os doentes,
as grávidas, também quem tem trabalho braçal intenso durante o dia etc. Isto
não significa que também são convidados a realizar algum tipo de sacrifício,
que ajude na própria espiritualidade quaresmal.
10.
Além da alimentação, é válido propor
outros tipos de jejum? Quais seriam exemplos coerentes com a espiritualidade
cristã?
R.: Há outros tipos de sacrifício, também considerados como jejuns, no caso por exemplo, evitar bebidas, ajudar pessoas necessitadas, realizar algum ato de caridade, prestar um serviço sem preocupação com o ganho material, tirar tempo para a oração, participar de uma celebração etc.
11. Qual
a diferença entre jejum e abstinência dentro da disciplina da Igreja?
R.: O jejum
e a abstinência são duas práticas comuns de penitência, mas se diferenciam: o
jejum é evitar uma ou mais refeições; a abstinência é a renúncia a um tipo
específico de alimento ou a algo que a pessoa gosta muito, na mortificação de
um prazer específico. Evitar o uso do celular pode ser uma grande abstinência,
um grande sacrifício.
12.
Como a oração deve ser intensificada
durante a Quaresma? Há práticas que o senhor recomenda especialmente?
R.: Orar
é colocar-se em sintonia com Deus, que pode ser com palavras e com o silêncio,
deixando Deus falar ao coração. A piedade popular usa muito a reza do terço, às
vezes de forma muito mecânica. Talvez a oração espontânea, com criatividade,
com textos bíblicos, provoque mais a espiritualidade e abertura do coração. A
oração do silêncio fala muito alto, principalmente na cultura do barulho e do
frenetismo de hoje.
13.
A caridade ganha um destaque especial
nesse tempo. Como ela deve ser compreendida e praticada pelos fiéis?
R.: O Gesto da caridade supõe
ajudar o próximo sem esperar benefício em troca, tanto por ações materiais como
por gestos de bondade, de amor e de compaixão. A caridade pode ser exercida
ouvindo o outro com atenção, através de um sorriso, doando ajuda material como roupas,
alimentos, recursos financeiros, ensino etc.
14.
A Campanha da Fraternidade acontece
tradicionalmente na Quaresma. Qual a importância dessa iniciativa para a Igreja
no Brasil?
R.: Há críticas a respeito da
Campanha da Fraternidade acontecer na Quaresma, dizendo que esse é tempo de
oração e não de tocar em temas sociais. Há também o perigo de separar a
espiritualidade da vida concreta. A intenção da CNBB é despertar nas pessoas o
exercício da solidariedade. Por isto apresenta temas normalmente urgentes, com
o objetivo de construir uma sociedade mais justa e fraterna. É a prática social
da conversão, podendo unir a oração, o jejum e a esmola em ações concretas de
amor ao próximo, levando as pessoas a uma transformação na vida social.
15.
A Quarta-feira de Cinzas marca o início
desse tempo litúrgico. Qual o significado das cinzas impostas aos fiéis?
R.: Na Quarta-feira de Cinzas tem
início o ciclo da Quaresma para os católicos. As cinzas têm um significado
espiritual muito grande e uma convocação para a prática da penitência, da
conversão e descoberta da fragilidade humana. As cinzas são feitas de ramos
bentos benzidos no ano anterior, lembra a mortalidade com a frase
"Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar". No fundo, é um convite
para o exercício do jejum e reflexão quaresmal. Elas são impostas na fronte das
pessoas normalmente um dia após o Carnaval.
16.
A Quaresma é frequentemente associada à
conversão. O que significa, na prática, converter-se?
R.: A conversão, também quando
olhamos para o contexto religioso, significa mudança de rumo, de mentalidade,
de atos praticados pelo coração. A Quaresma é tempo próprio de conversão, de
mudança de atitudes na conduta do cristão, como mudança de hábitos e atitudes impróprios
e apegar-se aos ensinamentos propostos pelo Evangelho. Não é simplesmente uma mudança externa, mas nova
forma da pessoa ser, propriamente um renascimento interior, que conduz a uma
vida totalmente nova e reta, um processo, que exige querer e assentimento à
vontade divina.
17.
Qual o papel do sacramento da
Reconciliação durante esse período?
R.: Entre os sete Sacramentos,
temos a Confissão (Sacramento da Reconciliação ou Penitência). A Confissão tem caído
em um certo esvaziamento na atual cultura. A impressão é de que não existe mais
pecado e nem sentimento de culpa. Mas, este Sacramento é um dos mais bonitos, pois
dá oportunidade ao cristão de reconhecer suas fraquezas, limitações, e
reconhecer a misericórdia e o perdão de Deus. Durante a Quaresma temos os “Mutirões
de Confissão”, momento privilegiado de encontro com Deus através do perdão. A base
desse Sacramento está nas palavras de Jesus (Jo 20,22-23).
18.
Como os jovens podem viver a Quaresma de
forma autêntica em meio às distrações e desafios atuais?
R.: Os jovens de hoje encontram muita
dificuldade para a prática das riquezas da Quaresma. Eles estão muito
envolvidos com o forte relativismo moral e religioso, com a banalização da
sexualidade, com a influência das redes sociais e esvaziamento da
espiritualidade juvenil. Mas, o jovem realmente cristão deve superar esses
desafios e valorizar a proposta da Quaresma, como um tempo em que se deve
intensificar a prática da oração. É como caminho que leva ao encontro do jovem
com Deus, e oportunidade para uma conversa sincera com o Senhor, de abertura do
coração a Ele e de pedir Sua ajuda.
19.
E nas famílias, como pais e filhos podem
viver juntos esse tempo de preparação para a Páscoa?
R.: Viver a riqueza da Páscoa
depende de preparação. A Quaresma se presta a isto, inclusive com o auxílio e
reflexão do tema da Campanha da Fraternidade, transformando a fé em ação
concreta. Para isto temos a Via Sacra em família, oportunidade de encontro de
todos os membros para o fortalecimento dos laços familiares. Enfrentamos os
desafios do individualismo dos novos tempos, mas vale a pena lutar para unir a família
em torno de objetivos importantes para a unidade familiar. Tudo depende de
determinação e desejo de unidade.
20.
Muitas pessoas perguntam se é permitido
participar de festas e celebrações durante a Quaresma. Como a Igreja orienta os
fiéis?
R.: Não é que haja proibição,
mas há orientação de que o tempo quaresmal seja vivido de forma mais serena,
silenciosa e reflexiva. As festas, às vezes, destonam do espírito desse tempo
de recolhimento na espiritualidade. A decisão depende da espiritualidade que
cada pessoa tem e da consciência do valor de uma mudança de vida nesse
importante tempo litúrgico, que marca o coração das pessoas.
21.
O sofrimento e a penitência são
elementos presentes nesse tempo. Como compreendê-los sem cair em uma visão
negativa da fé?
R.: A fé é abertura do coração da
pessoa para o encontro com Deus. Isto pode acontecer na normalidade da vida e,
às vezes, intensificada diante dos sofrimentos e das penitências que são praticadas.
Mas tudo depende da forma como cada pessoas encara essa realidade. Um sofrimento
com revolta contra tudo e contra todos, inclusive contra Deus, certamente não será
benéfico para a espiritualidade de quem assim age. Nesses fatos deve estar o
sentido da Quaresma.
22.
Qual a relação entre a Quaresma e o
mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo?
R.: A Quaresma, que começa na
Quarta-feira de Cinzas, termina na morte de Jesus na cruz. É uma trajetória de
paixão, de sofrimento na vida de Cristo. Mas, não para por aí, porque o cume de
tudo é o mistério da Ressurreição. Um fato não acontece sem o outro, porque há uma
profunda relação entre Quaresma, Paixão e Morte de Jesus com o fato da
Ressurreição. Quaresma como preparação, mistério da Paixão e Morte como entrega
de Cristo no sofrimento e Ressurreição como Vitória diante da morte.
23.
O que muda na liturgia e nos símbolos
das celebrações durante esse período?
R.: Os textos bíblicos são
direcionados para cada ciclo litúrgico. Os próprios da Quaresma e os da Páscoa.
As orações das missas são voltadas para o tempo em curso. Os paramentos também mudam
de cor conforme o ciclo do momento. Na Quaresma, por exemplo, usa-se a cor
roxa, símbolo de penitência e conversão; na Sexta-feira Santa o vermelho, símbolo
do sangue derramado na cruz; e na Páscoa o branco, sinal de vida ressuscitada,
alegria e paz.
24.
Como o fiel pode perceber se está
vivendo bem a Quaresma? Há sinais concretos dessa vivência espiritual?
R.: Isto é muito relativo,
porque os sentimentos são próprios de cada pessoa. Mas alguns sinais às vezes
são percebidos, principalmente com as atitudes, no relacionamento, na espiritualidade
e vida de oração, nos sacrifícios praticados, na forma de realizar os jejuns da
Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira da Paixão etc.
25.
Para encerrar, qual mensagem o senhor
deixa para os católicos da Arquidiocese de Uberaba para que vivam uma Quaresma
frutuosa e transformadora?
R.: Primeiro questão é não deixar
passar despercebida a riqueza desses momentos de espiritualidade. A correria da
vida hodierna vai desgastando o ser da pessoa e ela acaba se esvaziando na
intimidade com Deus. O ditado popular é muito significativo neste contexto: “Saco
vazio não para em pé”, e é verdade. Sem Deus, a vida pode perder o sentido e a
esperança. Temos oportunidade para recuperar as forças perdidas e esse período
quaresmal e pascal é oferecido como espaço de revitalização espiritual. A decisão
é pessoal.