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19 de outubro de 2025
A luz suave
da manhã atravessava as janelas e portas da Paróquia São Benedito, iluminando
os rostos dos fiéis que, pouco a pouco, se voltavam para o altar. Neste
domingo, 19 de outubro, Dia Mundial das Missões, não era apenas a fumaça das
velas que subia ao céu, mas algo mais denso e visível: um sentimento coletivo. Em
um mundo no qual o tempo se tornou algo raro e o silêncio reflexivo um luxo, o
padre Marcelo Lázaro ergueu a voz para recordar o óbvio esquecido: “Rezar é se
abrir à presença de Deus. É pedir que Ele faça parte de sua vida.” A oração materializa,
assim, um ato de resistência à falta de sensibilidade e amor tão presentes na
contemporaneidade.
Lá fora, o
ritmo frenético da vida moderna seduz com a promessa enganosa de que “não há
mais tempo para orações”, como advertiu o celebrante. Dentro da igreja, porém,
um contraponto se formava. A homilia não soou como um discurso abstrato, mas
como uma verdadeira cartografia da alma humana em tempos de provação. “Nossa
vida é uma luta, mas com oração, o povo de Deus vence”, proclamou Marcelo Lázaro
— não anunciando vitórias mundanas, mas a perseverança que moldou mártires e
missionários ao longo dos séculos.
Ao evocar o
clamor do Salmo 22 — “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” —, o mesmo clamor
de Cristo na cruz, o sacerdote revelava a oração em sua face mais humana e
redentora: não se trata de um refúgio para aquele que foge do sofrimento, mas
abrigo sagrado de quem, mesmo imerso na escuridão, insiste em dialogar com o
Pai e buscar n’Ele a própria força. Era o eco da exortação do Papa Francisco,
cujo lema para este dia, “Missionários de esperança entre os povos”, ressoava
como testemunho espiritual: a missão nasce justamente onde a fé resiste, mesmo
quando Deus parece em silêncio.
“Na correria do dia a dia, orar acaba virando a última tarefa da lista e muitas vezes fica por fazer”, confessou a professora Maria das Graças Silva, 48 anos, enquanto aguardava a comunhão. Seu testemunho sintetizava o desafio que padre Marcelo buscava denunciar: o secularismo não como inimigo visível, mas como correnteza silenciosa que nos arrasta para longe do essencial. Com a sensibilidade de quem conhece o peso das confissões, o sacerdote foi direto: “O mundo está nos seduzindo a desviar da oração e do diálogo com Deus Pai.” Para o que propôs um antídoto de simplicidade desconcertante: “Vir à missa é subir a montanha para estar com Deus e depois levá-Lo para casa.” A imagem, poderosa, remetia ao Êxodo e à Transfiguração: a missão como encontro transformador que se irradia.
O chamado, portanto, não era a um heroísmo inalcançável, mas à coragem das pequenas fidelidades cotidianas. “No Dia Mundial das Missões, somos chamados a falar com Deus e de Deus, dando-O a quem não O tem. Um ‘Deus te abençoe’ é muito importante — um gesto capaz de romper o gelo da indiferença e plantar uma semente de esperança”, frisou padre Marcelo. Era a evangelização sonhada pelo Papa Francisco: uma Igreja em saída, que não se acomoda nos bancos, mas leva o colo de Deus a um mundo sedento de abraços e de renovação da fé.
Quando a assembleia se levantou para a bênção final, não se via ali apenas um grupo de fiéis cumprindo um rito, mas missionários que se preparavam para a batalha mais urgente: a de reumanizar um mundo dessacralizado. A oração, “alimento da fé” que “nos sustenta nas batalhas”, como lembrou o padre Marcelo Lázaro, não é fuga, mas força: o combustível da transformação. A esperança, afinal, não é um sentimento passivo: é decisão. Trata-se de erguer as mãos e, abrir espaço em sua vida para pedir o colo de Deus, e depois, com coragem, oferecê-lo a quem ainda não sabe o que lhe falta.
Jorn.
François Ramos – Assessoria de Imprensa/Arquidiocese de Uberaba