Aguarde...
9 de outubro de 2025
“Eu te amei” (Dilexi te). Com este título, extraído das Escrituras, o Papa Leão XIV assinou a sua primeira Exortação Apostólica. Apresentando um texto denso de 121 pontos que serão apresentados à imprensa nesta quinta-feira (09/10), o documento brota do Evangelho e relança o Magistério da Igreja sobre os pobres, apresentando-os não como um “problema social”, mas como o “coração” da mensagem cristã e “questão familiar” para todos os fiéis.
A Exortação, que o Vatican News descreve como uma “verdadeira mina de ensinamentos”, situa-se na esteira do ensinamento dos Papas do último século e meio. Leão XIV, o Pontífice agostiniano, segue os passos de João XXIII, Paulo VI – a quem chama “advogado dos povos pobres” –, João Paulo II, Bento XVI e, de forma particular, do Papa Francisco. Foi o próprio Francisco quem, nos meses que antecederam sua morte, iniciou a redação deste texto, tal como Bento XVI o fizera com a Lumen Fidei, completada depois por seu sucessor.
Dom Paulo Mendes Peixoto, Arcebispo de Uberaba, destacou a relevância do documento. “Esta Exortação chega como luz em tempo de grandes sombras. Dilexi te não é apenas um documento, mas uma bússola que reorienta nossa ação pastoral para o essencial: o amor preferencial pelos pobres, como espelho do amor de Cristo. Ela nos desafia a superar a indiferença e a converter nossas estruturas eclesiais em espaços de acolhimento efetivo”.
O documento analisa os múltiplos “rostos” da pobreza: material, social, moral, espiritual e cultural. Perante um mundo marcado por “numerosas desigualdades” e por novas formas de pobreza “mais sutis e perigosas”, o Papa aponta o dedo à “falta de equidade”, que considera “a raiz de todos os males sociais”. Denuncia a “ditadura de uma economia que mata” e as “ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados”, alertando que a cultura do descarte, “por vezes bem disfarçada”, tolera com indiferença que milhões morram de fome.
Um dos pontos centrais do texto é a defesa intransigente de que “os pobres não existem por acaso”. Leão XIV rejeita a “falsa visão da meritocracia” e condena a “cegueira e crueldade” de quem ousa afirmar que a pobreza é uma escolha. Perante isto, invoca uma “mudança de mentalidade”, libertando-se da “ilusão de uma felicidade que deriva de uma vida confortável”.
A Exortação dedica um amplo espaço ao drama das migrações, recordando a imagem do pequeno Alan Kurdi, cuja morte se tornou “cada vez mais irrelevante” para a opinião pública. “Onde o mundo vê ameaça, [a Igreja] vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade”, afirma o Papa.
O Pontífice olha também para a situação das “mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência”, definindo-as como “duplamente pobres”. E salienta o direito à educação, defendendo que “não é um favor, mas um dever”.
Num gesto significativo, Leão XIV evoca o testemunho de uma santa brasileira, Santa Dulce dos Pobres, cuja vida é citada como exemplo contemporâneo do amor que se encarna no cuidado dos doentes. A sua obra, tal como a de São Francisco de Assis, Madre Teresa, e de inúmeras ordens religiosas ao longo dos séculos, mostra uma “Igreja pobre e para os pobres”. O Papa recorda ainda o trabalho de congregações como os Camilianos e as beneditinas, e a luta de ordens como os trinitários contra as escravidões modernas.
O documento conclui com um apelo veemente a todo o Povo de Deus para “fazer ouvir uma voz que desperte, denuncie e se exponha”. A relação com os pobres, sublinha, “não pode ser reduzida a uma atividade ou departamento da Igreja”. Pelo contrário, “a Igreja, quando se curva para cuidar dos pobres, assume sua postura mais elevada”. Servi-los, conclui, é um “encontro entre iguais”, o gesto mais crível de uma fé que se faz carne no mundo.
Jorn. François Ramos - Assessoria de Imprensa/Arquidiocese de Uberaba
Foto: Vatican Media