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23 de fevereiro de 2026
O desafio da Quaresma para o
cristão, que exige mudança e conversão pessoal, é a saída da zona de conforto.
Toda mudança desestrutura as bases das pessoas humanas, leva à perda de raízes
estabilizadas, principalmente porque são seres relacionais, e exige delas
atitudes de coragem e determinação. As mudanças espirituais têm por finalidade
conduzir o indivíduo para o encontro com Deus.
As pessoas migram de um lugar para outro em busca de vida
melhor. Dá a impressão de troca de valores, sair do não ter para o ter, o que é
necessário para uma vida mais feliz. A dimensão da Quaresma vai mais adiante,
porque quer atingir o interior da pessoa, exigindo dela a prática do tripé
espiritual, que é a fé, a esperança e a caridade. A real felicidade depende de
intimidade com o Senhor.
Nos termos da Campanha da Fraternidade de 2026,
“Fraternidade e moradia”, não é totalmente feliz quem não tem onde recostar a
cabeça com tranquilidade. A falta de teto fere a dignidade do ser humano,
porque ele tem que morar em lugares indignos, às vezes, nas ruas e praças,
recebendo todo tipo de carga negativa. Essa realidade é uma violência para a
dignidade da pessoa.
Abraão assumiu a proposta de Deus, de ter que sair de sua
zona de conforto, do lugar-comum, e ir para uma terra desconhecida (cf. Gn
12,1). Deveria fazer uma ruptura com o que possuía, deixar tudo para trás, para
começar uma nova vida, com novos desafios. A migração é fato real em todo o
Brasil, as pessoas e famílias têm que enfrentar as dificuldades do novo
ambiente, às vezes mal acolhidas.
Toda pessoa que migra, sai com a clareza do que deixa e leva
consigo a obscuridade de seu destino. Mas o caminho deve ser de confiança na
presença de Deus, que é fonte de graça e caminha com seu povo, de forma
especial, com os mais sofridos, os sem-terra, sem teto e sem trabalho (Papa
Francisco). Fraternidade e moradia é um clamor para que haja partilha e casa
para todos.
A Quaresma quer abrir os ouvidos das pessoas para escutar as
propostas do Evangelho, evitar confundir os ruídos do cotidiano, de ouvir a
própria voz e não perceber a voz do Mestre. O fundamental é desinstalar-se e
sair da mesmice para dar passos de renovação, um verdadeiro processo de
transfiguração, de assumir um projeto de vida e caminho seguro para a Páscoa da
Ressurreição.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba