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20 de outubro de 2025
Não é realidade fácil a pessoa
sair de si mesma, do seu egoísmo e do estado de autorreferenciamento. Assim, as
palavras, humildade, pequenez e simplicidade são todos desafios para a atual
cultura. O que vemos mesmo é a busca pertinaz de grandeza, poder, boa aparência
e individualismo exacerbado. O ter, quando enraizado na sensibilidade do
coração, obscurece a identidade do “eu”, do ser.
Na Palavra de Deus está um exemplo esclarecedor desse fato, quando
olhamos para as pessoas concretas de um fariseu e de um publicano (cf. Lc
18,10). Os dois entram num templo e têm atitudes diversas. O fariseu, cheio de
orgulho próprio, de vaidade, centrado em seu próprio “eu”, não se abre aos
propósitos da Palavra. O publicano demonstra humildade e consciência de sua
pequenez.
Há o perigo da pessoa viver escondida por traz de máscaras,
que escondem a realidade da vida e a torna falsa na sociedade. O Papa Francisco
chamava isso de “clericalismo”, de tradicionalismo, de onde surgem os grandes
escândalos, provocando sofrimento para a vida da Igreja. Podemos dizer que a
falsidade tem “pernas curtas”, porque a verdade sempre vence nos momentos
certos.
Os personagens bíblicos tiveram grande sensibilidade para
com o sentido da vida. Paulo escreve a Timóteo falando da fé como parte
essencial da existência humana e do seu estilo pessoal, de forma desprendida no
seu currículo de vida. Viver além do próprio “eu” é a pessoa colocar-se nas
mãos de Deus, tendo nele a plena certeza da recompensa e da coroa da justiça
(cf. 2Tm 4,8).
Todo ser humano tem virtudes, capacidades, forças, dons, mas
também muitos limites, ambos relacionados com sua identidade, sua origem, seu
caráter e seu “eu” constitutivo. Muitas vezes são frutos das influências
sociais, tanto positivas como negativas. Sair de si supõe capacidade de
discernimento, principalmente por saber que ninguém é o centro do mundo e das
atenções na vida.
O coração da pessoa, isto é, o espaço existencial onde o
“eu” individual, ou a falta de humildade é muito evidente, ali não tem lugar
para Deus. A isto chamamos de individualismo exacerbado, sem sensibilidade para
com as realidades divinas e nem para com o outro e, às vezes, até em relação à
natureza. É como dizer, “eu me basto e pronto”, não dependo de motivações, nem de
fora e nem do alto.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba