Aguarde...
16 de fevereiro de 2026
A expressão está em sintonia com o
Tempo da Quaresma e com os indicativos de purificação, penitência e conversão.
Para Jesus, passar pelo deserto foi momento de tentações, seduções e investidas
do demônio. Se as pessoas se deixam sucumbir por essas situações, as
consequências são de divisão, desumanização e estrangulação da consciência de
fé nas relações com Deus e com a comunidade.
Na visão bíblica, o ser humano veio do pó da terra, do sopro
de Deus, e para ele vai voltar, mas levando consigo todos os frutos
conquistados durante a trajetória feita pelo deserto, das conquistas
adquiridas, singularmente, no difícil enfrentamento cotidiano da vida, mas de
forma determinada. Deserto pode implicar sofrimento e oportunidade criativa,
que envolve a história toda da pessoa.
O enunciado bíblico, na expressão de “Jardim do Edem” (Gn
2,15), não aparece como deserto, mas lugar de escolha entre o bem e o mal. O
casal, Adão e Eva, não foi capaz de optar pelo bem, que exigia a virtude da
obediência à proposta apresentada pelo Senhor. A escolha do mal trouxe
consequências pessoais e tiveram que arcar com o peso da decisão, marcando a
vida de toda a humanidade.
A serpente do Jardim
do Edem foi instrumento de tentação para o primeiro casal, assim foi o demônio,
que tentou Jesus no deserto da Palestina. Jesus não se deixou levar para as
propostas do mal. Não foi o que aconteceu com Adão e Eva, que não conseguiram
resistir diante da maldade da serpente. Os dois não se conformaram em ser
humanos e sim ser como deuses e se deram mal.
O Jardim do Edem é uma figura do Céu. Não cabe, nos dois, a
injustiça e a desobediência. Por causa disto, o primitivo casal, pela infidelidade,
contaminou toda a história da humanidade, e não só foi expulso do Jardim, mas
perdeu os privilégios de origem. Daí, a vida se tornou mais difícil e passou a exigir
trabalho e esforço redobrado para reconquistá-lo. Mas Deus concedeu a graça do
perdão.
O individualismo e a indiferença da pessoa em relação aos
outros, nos dias de hoje, se equiparam perfeitamente às tentações sofridas no
deserto, por ser ali lugar de isolamento e de conflitos interiores. Sem uma
postura firme e um coração aberto para Deus, contido nos Evangelhos, a pessoa
acaba se deixando levar pela tentação da insensibilidade para o sentido belo da
vida.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba