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23 de março de 2026
A incerteza é um estado de
espírito de quem está envolvido numa total indefinição, acomodado e incapaz de
projetar atitudes de progresso e construção de realidades novas. Assim acontece
com o cristão desanimado, que não consegue sair da mesmice e não dá passos para
um encontro pessoal com Jesus Cristo. Mesmo com a riqueza da Quaresma, chega à
Semana Santa com o coração vazio.
A imobilidade não deve ser a consequência para aquele que
escuta e absorve as indicações da Palavra de Deus. Também, quem pratica atos de
nível indesejável, revela incapacidade para entender que o ser humano foi
projetado para construir o bem e é motivado para isso. Não é saudável a pessoa
ficar na condição de acomodada e improdutiva, porque é prejuízo para si e para
toda a sociedade.
O contexto reflexivo que se vive durante a Semana Santa, com
início no Domingo de Ramos, revela a condição da humanidade de Jesus Cristo,
Deus feito Homem, para consolidar as pessoas como seres humanos. A Paixão
sofredora e humana do Mestre evidencia o nivelamento e a condição de ser
identificado e solidário com todos os escanteados, flagelados e sofredores
alhures pelo mundo.
A conquista da plenitude sobrenatural da vida não pode ficar
no campo da incerteza, no clima de desilusão e total fechamento em relação a
Deus. O caminho apresentado por Cristo é a simplicidade e capacidade de
sublimação dos que são desprezados e frágeis. É na prática da servidão, do
esvaziamento existencial que está a força de Deus, e faz dos humildes instrumentos
de construção de seu Reino.
A incerteza não pode ser fruto ou reflexo de neutralidade,
de descompromisso com a vida do outro, como faziam os fariseus no tempo de
Jesus. Preocupavam-se com atos simplesmente externos, como lavar copos (cf. Mc
7,4) e não davam atenção aos necessitados presentes na comunidade. Não eram
atitudes de incerteza, mas de hipocrisia e legalismo, motivo de duras críticas
de Jesus.
Para Jesus, a vida é sustentada por situações concretas, por
atitudes realmente verdadeiras, não através de incertezas, realizadas
simplesmente a partir de ideias. Os gestos falam mais alto do que as palavras,
por não ficar na neutralidade e nem no descompromisso. Foi justamente esta a
atitude de Jesus, chegando a ser condenado e levado ao martírio, crucificado
brutalmente numa cruz.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba